Ícone desde a década de 1970, o Calçadão reflete a história de Londrina. Design original do espaço é resgatado em projeto urbanístico da Vectra
Símbolo urbano e cultural de Londrina, o Calçadão está no coração do centro histórico da cidade. É parte de um projeto de revitalização do “novo centro”, desenhado pelo arquiteto e urbanista Jaime Lerner, na década de 1970. Está presente na história e na memória afetiva de muitos londrinenses. O desenho original das calçadas, feito em pedras portuguesas, os conhecidos petit pavets, nas cores preta e branca, sua marca principal, segue preservado em um dos cinco trechos, onde está localizado o Teatro Ouro Verde. A paginação das calçadas de um dos cartões postais do município inspirou o desenvolvimento de um projeto urbanístico que visa criar uma identidade urbana para um bairro em verticalização, a Nova Prochet.
Contratado pela Vectra, pioneira no lançamento de empreendimentos verticais na região, o escritório do engenheiro agrônomo e paisagista, Ivan Pona, é autor do projeto de design urbano no bairro. Segundo ele, a região possui um grande potencial de desenvolvimento, com generosas vias coletoras de veículos e previsão de expansão de áreas de circulação que favoreçam a caminhabilidade. O conceito principal do trabalho é facilitar a mobilidade, incentivar a conexão com a natureza, e promover conforto térmico e visual por meio da criação de uma identidade urbana, com paginação de calçadas, iluminação, acessibilidade e mobiliário urbano padronizados, com bancos, lixeiras e bebedouros.
“Queremos criar nas pessoas que viverão ali um sentimento de pertencimento e relação com o ambiente onde morarão. Promover a conexão visual entre esses elementos é uma ação de gentileza urbana”, afirma.
De acordo com Pona, o projeto original do Calçadão de Londrina foi usado como inspiração e partido criativo para o desenvolvimento de uma identidade própria para a Nova Prochet. O projeto valoriza a história do espaço, mas traz um viés contemporâneo, para criar uma memória nova para o bairro. Ele afirma que, para desenvolver o design, buscou inspiração, também, em projetos urbanos correlatos fora do Brasil, em cidades antigas que resgataram a sua história com a representação de elementos modernos. A paginação da calçada já foi aplicada na nova sede da Vectra, na Avenida Adhemar Pereira de Barros, nº 811, e nos edifícios Wave e Wonder, entregues em 2025, e será replicada em frente a outros empreendimentos – Wynn, Oro, Gaia, Hera, Zahra, Lótus, Oscar e Lina - que a construtora já lançou na Nova Prochet.
“Só o fato de usar o petit pavet preto e branco, na forma geométrica, já mexe com os nossos sentidos. Nosso projeto resgata não só o visual, mas a parte cultural e social. Pensamos numa paginação mais linear e na possibilidade da brincadeira de pisar no preto e no branco. Como estávamos buscando criar uma identidade, desdobramos a nova paginação inspirada em filamentos de DNA, algo fácil de ser replicado em calçadas maiores e menores”, explica Pona.
A diretora executiva da Vectra, Roberta Costa Alves Nunes Mansano, diz que o projeto busca trazer referências históricas e afetivas ao fazer uma homenagem para Londrina.
“Somos uma empresa londrinense. Meu pai é um londrinense orgulhoso de ter se formado aqui, de conhecer muito a história, e de ter contribuído para o desenvolvimento dela também, trabalhando na construção de alguns cartões postais da cidade. Então, a gente achou que seria importante fazer uma homenagem”, conta.
Além da paginação das calçadas, Roberta diz que serão replicados alguns mobiliários que fazem referência ao projeto original do Calçadão, como a luminária que tinha a forma estilizada de uma araucária, considerada árvore símbolo do Paraná. O paisagismo da nova sede da empresa, por exemplo, contempla espécies que fazem parte da floresta original e outras transplantadas do antigo endereço da construtora, como alguns ipês e jasmins-manga.
Retratos da história
Parte do projeto de revitalização do novo centro de Londrina, de autoria do arquiteto e urbanista Jaime Lerner, o Calçadão foi desenhado com apenas três quadras inicialmente, na Avenida Paraná, entre as ruas João Cândido e Minas Gerais, a quadra onde está localizado o Teatro Ouro Verde, a única que mantém preservado o projeto original após a reforma. Lerner também projetou praças, sentidos de vias, pontos de táxi, vias de circulação de ônibus e todo o mobiliário urbano e iluminação daquela região. O petit pavet foi executado, inclusive, nas ruas do entorno.
A arquiteta, urbanista e gerente de projetos urbanísticos e edificações do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina (Ippul), Amanda Salvioni Sisti, conta que a ampliação para cinco quadras, até a Rua Prefeito Hugo Cabral, ocorreu na década de 1990. O projeto, do arquiteto Elcio Mello, seguiu o padrão original e contemplou a construção do hoje já extinto Coreto. Segundo ela, baseado em uma rua coberta, o projeto de Lerner não foi executado em sua totalidade. Ele previu um conjunto de coberturas serpenteando o Calçadão para abrigar as pessoas, protegendo-as do sol e da chuva.
Apesar de o piso ser o grande marco do espaço, não foi Lerner quem o desenhou, apenas especificou o uso de pedras portuguesas. O design simboliza uma corrente e remete aos elos dos povos que colonizaram Londrina, pioneiros de origens diversas. A riqueza do desenho, atribuído ao arquiteto e então servidor municipal, Hely Brêtas, está relacionada à história da cidade e foi criada por um londrinense. Em dezembro de 2025, a Prefeitura de Londrina entregou ao Governo do Paraná o projeto de revitalização do trecho do Ouro Verde, que prevê a restauração do piso, recuperação das luminárias e reconstituição do mobiliário. A ideia é manter a estética original e atualizar a obra com técnicas modernas, com previsão de wi-fi e pontos para carregamento de celular.
“O fato de vermos o desenho do Calçadão sendo replicado em outros bairros da cidade demonstra o quanto as empresas londrinenses reconhecem o valor histórico do espaço”, avalia Amanda.